Onze e meia

A areia bate no rosto do cavaleiro, seu cabelo perdera a luta contra o vento, e seu cavalo tem o ritmo de quem conheceu muito, viveu muito. Ele está cavalgando para a Cidade do Sol, em que nasceu e viveu, e esta cidade não é mais o que costumava ser, o dourado do Sol beijando o chão, fora expulso, pelo frio do inverno que é  o homem.

As casas estavam surradas, algumas destelhadas. As portas da igreja estavam escancaradas, todos seus segredos foram profanados. E por toda a cidade, nada de significante foi deixado para trás ou velado, o que se manteve foram as memórias, cobertas pela grossa camada de poeira. E tudo era seco, pálido e frio.

“Pai, você que sempre olhou por mim, que sempre olhou por nós, é esta seca a punição por meus pecados?”

Na Cidade do Sol, onde o rio corria livre, desafiando as crianças para correrem com ele. Onde as vacas eram gordas e tinham leite em abundância, sequer os gatos passavam fome. No lugar onde viu seu rápido pai, tornar-se lento, sua bela mãe, perder a luta contra o tempo. Na cachoeira em que sua melhor amiga, tornou-se sua amada.

No meio de seu peito tem uma estação de trem, nela seus desejos embarcam e lembranças desembarcam. Um passageiro ansioso olha o relógio de pulso incessantemente, esperando o último trem, das onze e meia. A estação será fechada para concertos por tempo indeterminado, e isso virou a ansiedade em suas veias, a angústia que envenenou seu coração. O ultimo trem das onze e meia, com destino a Cidade do Sol.